terça-feira, 26 de janeiro de 2010

'A' Entrevista - I

Pessoas.
Quanto tempo.
Só eu sei como fiquei 'me coçando' para escrever no blog, mas não tive tempo hábil, pois estou na rotina mais 'aguniada' do mundo: jornal-assessoria-inglês-amigos. Boa, não é mesmo?
Então. Desde janeiro acontecem coisas MUITO interessantes na minha vida e a cada dia que se passa, eu estou convicta que encontrei o que quero fazer: ser jornalista!
Direto faço umas entrevistas bacanas e publico essa, em especial, pois foi muito emocionante.
Conversei com Zezinho do Araguaia, um dos sobreviventes da Guerilha do Araguaia, que aconteceu na década de 70, na região de Xambioá, hoje, norte do Estado do Tocantins. Era um sábado chuvoso de janeiro na capital do Tocantins, por volta das 8h30, na recepção de um hotel, Zezinho do Araguaia me contou sobre o medo, a coragem e a militância estudantil (quando essa ainda tinha sentido).
Fiquei muito emocionada quando ele disse, com voz embargada e lágrimas nos olhos, que lutou para que pudesse "está aqui conversando com você, e principalmente, de ter liberdade de ir e vir, pois naquela época, se três pessoas estivessem conversando elas eram presas, torturadas e até mortas, porque "eles" acusavam de estarem conspirando contra o governo."
Depois dessa entrevista, percebi que 'estamos muito bem' com essa democracia falha, pois pelo menos, ainda é DEMOCRACIA.

Segue a entrevista:

De onde o senhor veio?
Sou de Capanema, 60 km de Belém (PA). Fui criado em Belém e na Ilha do Marajó.

Hoje, o senhor trabalha ativamente em seminários e discussões acerca da anistia e direitos humanos. Como estão esses trabalhos?
Já realizamos seminários de direitos humanos latino-americanos no país. Ultimamente, fizemos uma parceria com o Arquivo Nacional para escrever a nossa história, pois a que conhecemos sempre foi contada pelos opressores e nunca pelos oprimidos. Então, durante 3º Seminário Latino-americano de Anistia e Direitos Humanos, realizado em novembro de 2009, conseguimos escrever o primeiro capitulo desse luta, onde levei 44 companheiros do Araguaia que sofreram todo tipo de agressão e humilhação que um ser humano pode sofrer para serem ouvidos nesse seminário.

E o Memorial?
O Memorial do Araguaia servirá como catalizador, na bacia do Araguaia e Tocantins, para levar conhecimento e receber o conhecimento empírico da população. Será, principalmente, um simbolo da luta travada pelos componeses da região do Bico do Papagaio, para construir um patrimônio histórico cultural e literário. De 2001 a 2003 esperamos pela aprovação do projeto por meio do Ministério da Cultura. Após a provação recebemos a primeira parte do recurso para construção do local no dia 24 de agosto de 2009, sendo que esse valor só dá para construir 1/5 de todos o projeto, ou seja, o anfiteatro. Nossa expectativa é que a obra esteja pronta em março desse ano, para que possamos inaugurar e a população da região possa Ter seu espaço de cultura e de história.

Como foi seu encontro com a Guerilha do Araguaia?
Tenho 37 anos de militância no PCdoB, desses, por volta de 1966, passei um ano e meio na China, por causa das perseguições dos militares aqui no Brasil. Voltei para o país e fomos para as ruas protestar contra o regime. Quando não tivemos mais condições de ficar nas ruas protestando porque éramos presos ou mortos o grupo de dividiu, uma parte foi para luta armada na cidade e o grupo do qual fazia parte, não concordávamos com isso.
Em 1968, vim para o Tocantins, então região norte de Goiás e entrei na luta dos camponeses, na região do araguaia. Viemos para o campo e lutamos por três anos seguidos, de 1972 a 1975, devido o ataque que sofremos em 72, o que desencadeou toda a Guerilha.

Porque ir participar de uma Guerrilha. Qual o era ideal?
O ideal é esse de está aqui, conversando com você, de ter liberdade de ir e vir, pois naquela época, se três pessoas estivessem conversando elas eram presas, torturadas e até mortas, porque "eles" acusavam de estarem conspirando contra o governo.

O que esse movimento influenciou na história do país?

Todas essas ações foram muito importantes para a história do país, pois elas que abriram caminho para o movimento de Diretas Já, ou seja abriram caminho para a democracia que viemos atualmente.
Hoje, ao ver a imprensa com jovens como você e como tantos outros, isso dignifica a luta que muitos viveram, lutaram, sofreram e morreram para buscar a paz, a união e a concórdia.

Como foi perder os amigos e companheiros de luta?
Ali estavam os melhores jovens brasileiros e as melhores cabeças pensantes daquela época, sem desmerecer aqueles professores que foram assassinados na cidade, aqueles cientistas que foram mortos. "Eles" queriam tornar o Brasil um país sem cultura e sem horizonte, onde a juventude não tivesse um ideal ou um norte.

Em toda essa luta, eu perdi mais de 500 amigos, éramos 68 jovens em 1972, e desses só sobraram 58, onde eu sou um sobrevivente e o único que combateu durante os três anos de Guerilha. Tive que retirar companheiros da luta no primeiro e segundo ano, e depois fiquei até o fim com os que restaram.

Após a Guerilha do Araguaia, como ficou sua vida?
Durante 33 anos da minha vida vivi na clandestinidade. Até 1192, eu era procurado pela operação Condor. E desde 1970 eles andavam no meu rastro, daí tive que usar mais de 80 nomes para apagar esse rastro.
Quando sai da batalha, levei alguns companheiros para São Paulo e lá comecei a trabalhar em alguns projetos, como educação de trânsito, despoluição dos rios Tietê e Pinheiros. Além de participar como penetra nas audiências da Câmara Municipal da cidade, durante a formulação do seu Plano Diretor. Era lá onde eu poderia dar minha opinião em algo.

O Governo Federal quer abrir os arquivos da época da Ditadura Militar, o que o senhor acha sobre isso?
Os arquivos somos nós que sofremos, aquilo ali, são apenas registros do trabalho dos opressores contra os oprimidos. Vamos abrir o quê? Temos que pegar o depoimneto dos companheiros que ainda estão vivos e que passaram por tudo aquilo. Não sou contra nada, até acredito que tenha que ser aberto sim, mas eu tenho a obrigação e o dever de levar alternativas racionais a tudo. Vamos ouvir quem viveu e sofreu com tudo isso.

Infográfico da Revista Escola - Editora Abril - sobre a localização da Guerrilha do Araguaia.

Mais informações sobre o Memorial do Araguaia acesse aqui.

Um comentário:

  1. "me contou sobre o medo, a coragem e a militância estudantil (quando essa ainda tinha sentido).
    "
    Isso é muito real, sou militante do PCDOB, mas sei que hoje temos uma crase crise moral é ética todas tem como mentor o governo que está aí, Lula foi e é mais neoliberal que o PSDB todo junto, festejado pelos capitalistas do mundo pouco sente a dor de um Zezinho... a memória dos jovens mortos no Araguaia é todos os dias chafurdada na lama por uma esquerda vendida e cretina.

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