segunda-feira, 24 de maio de 2010

Diário de Campo - 20 de Maio de 2010

Diário de Campo
Natividade, 20 de maio de 2010.

Saí de Palmas por volta de 6 horas da manhã e claro, a van me enrolou, pois me informaram que passariam às 4h30 e só apareceram às 5h30. Ou seja, noite mal dormida!
Dormi toda a viagem e cheguei em Natividade por volta das 9h30 da manhã. São em média 250 km de distância da Capital. Assim que pisei na rodoviária liguei para o Secretario de Cultura do município e ele foi me buscar no local, além de me levar até a casa da universidade para que ficasse hospedada por esses dias. A chave da porta principal é um monstro de grande! Sério mesmo.
Passamos em frente os locais da festa do Capitão do Mastro e do Imperador. E algo que é notório, a população de Natividade é em sua grande maioria de origem negra, acredito que seja devido a colonização da cidade por causa da exploração de ouro na região.
Depois de me alojar já fiquei doida por não ter o que fazer e sabendo que as coisas estavam acontecendo resolvi ir até a sede da Secretaria Municipal de Cultura, Turismo, Juventude e Esporte, onde o secretário se encontrava para começar os trabalhos. Até porque caiu a ficha e tenho muita coisa para fazer.
Cheguei lá por volta de 10h30 e conheci o Flávio (que acho que já o conheçia por causa dos seminários de Natividade, o que é ótimo, pois ele poderá me auxiliar muito durante as pesquisas) que conhece grande parte dos moradores da cidade e ainda é devoto do Divino.
Conversamos até as 11h15 da manhã e marcamos de ir aos locais onde os devotos estavam preparando as ornamentações, alimentação entre outros para os próximos dias de festas em tributo ao Divino. Ele vai me emprestar uma câmera fotográfica, pois não consegui nenhuma. Lembrar de: comprar uma câmera urgentemente!
Fui almoçar e deparei-me com uma situação engraçada: eu sozinha em uma mesa no centro da churrascaria e ao redor duas mesas repletas de soldados do exército. Algumas amigas minhas iriam adorar, claro que eu achei bom, não é?
Depois do almoço voltei para a casa de cultura e descansei um pouco. Parecia que tinha carregado 10 mil sacos de cimento nas costas! Cansaço! Até porque na quarta-feira foi tudo bem cansativo e estressante, mas no fim deu tudo certo, senão, nem estaria aqui. Enquanto dormia um pouco, o pessoal do Jornal do Tocantins me liga para pegar algumas informações sobre a Festa do Divino. Sinceramente, fico sem graça com essa exposição. Daí a jornalista perguntou se eu era especialista,  e consenti, até porque tenho especialização em Cidadania e Cultura, só que ao mesmo tempo, me assustei, pois essa coisa de títulos soa tão estanho para mim.
Enfim, voltando para a coleta de dados.
Ás 14h fui para a secretaria de cultura, turismo, juventude e esporte para que o Flavio me acompanhasse até a casa do Imperador e na casa do Capitão do Mastro. Enquanto o esperava na Praça da Bandeira que já foi, de acordo com relatos de história oral, a Praça do Pelourinho, moradores estavam reunidos em uma das casas que fica em frente a essa praça e combinavam seu percurso (trilha) para a Romaria do Bonfim, que acontece em agosto, no povoado do Bonfim, distante 22km de Natividade.
Durante o percurso até o centro de cultura da cidade, observei o modo de vida das cidades do interior, pois não adianta você querer resolver as “coisas” no horário do almoço porque isso será improvável.  E tudo é bem mais calmo do que na Capital ou qualquer outra cidade maior. Os funcionários da secretaria estavam comemorando a vinda de uma agência do Banco do Brasil para Natividade e que teriam até que mudar de sede para ceder o prédio para o banco, mas isso não seria um problema.
Chegando ao centro de cultura, conheci a lojinha de artesanatos que será inaugurada no dia 16 de junho de 2010, durante o Seminário Nacional de Arte, Comunicação e Cidadania deste ano. No local já existem alguns artefatos para venda como chaveiros, molduras para parede e licores com motivos da Festa do Divino Espírito Santo.  No interior do centro, algumas mulheres ornamentavam algumas cestas com papel crepom vermelho e branco e flores do mesmo material na cor branca. Essas cestas seriam recheadas com os ‘pãezinhos do Divino’ que é distribuído gratuitamente após serem bentos durante a missa do Imperador para a comunidade presente. Marquei de entrevistar Dona Zeza e Marilia (que produzia antigamente os licores para a festa) de entrevista-las nesses próximos dias e minha idéia é que essas entrevistas aconteçam na manhã de sexta.
Logo depois da visita ao centro de cultura fomos para a casa do Imperador para conferir os últimos preparativos para a Festa do Imperador. No local, homens e mulheres de todas as idades trabalhavam em conjunto para cortar, fritar, pilando (no pilão de madeira) e colocar em recipientes plásticos, além de fazer, assar e empacotar os vários tipos de biscoitos (biscoito do céu, bolacha,  peta e amor-perfeito) que serão distribuídos para a comunidade. Uma animação e disposição sem fim. Ao som de forró, causos eram contatos durante o decorrer das atividades e fogos de artifícios que eram soltos como sinal de comunicação tanto da casa do Imperador quanto na casa do Capitão do Mastro, como resposta ao chamado de um e do outro. Os foguetes continuaram a noite toda...
Dona Urânia disse que todos que estavam lá era voluntários e atendiam ao chamado do Divino. “Se é para o Divino, ninguém reclama e nem ganha nada, aliás, ganhamos as bênçãos do Divino”.
É notório que os devotos têm uma fé imensurável para com o Divino Espírito Santo. Eles trabalham e se esforçam para preparar todas as comidas, bebidas e ornamentação em nome do Divino. No local há uma energia muito boa. Não há discussão, pois todos estão juntos em nome da fé, da propagação do nome do Divino e em busca das suas bênçãos.
Fiquei muito contente com a disposição e hospitalidade dos nativitanos. Tudo bem que a principio as pessoas olham meio desconfiadas, mas depois que explicava o trabalho que estava desenvolvendo eles se abriam mais e começavam a falar sobre a festa e seu amor pelo Divino Espírito Santo.
Nessa noite começaram os tríduos ao Divino na Igreja Matriz Nossa Senhora da Natividade. Cheguei na missa o padre já estava entrando junto com seus coroinhas, Imperador e imperatriz e Capitão e Rainha do Mastro. Dentro da Matriz, poucas pessoas participavam do tríduo (a igreja não estava lotada e alguns bancos estavam vagos), grande maioria dos presentes eram mulheres, além de poucos homens e jovens.
O tríduo é rápido e logo em seguida começa a missa. Engraçado como alguns ritos da missa são diferentes de cidade para cidade, não os tradicionais, mas sim a forma de como realizá-los. Durante a homilia o padre Pedro pede aos devotos que sigam três palavras durante a Festa do Divino Espírito Santo, são elas: caridade, devoção e unidade. Para ele, “o Divino amolece nossos corações, nossos preconceitos e nos aproxima de Deus. A bandeira do Divino faz o povo de Deus se aproximar dele.” Uma das coisas que vi e senti foram como o ambiente fica carregado de fé e em todos os cânticos, orações e ladainhas em coro unisinuo.
Ao final da missa, o padre pediu para que as pessoas para trazerem uma vela no tríduo de sexta-feira que será benzida e ‘levada ao Pai’ para que o devoto a acenda só em momentos de extrema dificuldade e quando a fé se esvai. Antes da benção final, padre Pedro convidou o Capitão do Mastro e por último o Imperador para fazerem o uso da palavra e convidar os devotos para participar das festas desse fim de semana.
O Capitão do Mastro Antonio Luiz disse para os presentes que tentou fazer o mínimo durante esse um ano de preparação para que a festa acontecesse da melhor maneira possível, segundo ele, o máximo ninguém consegue. O Capitão ainda convidou todos para participar da missa, da buscada e levantada do mastro, além da festa do capitão que será realizada no sábado.
Já o Imperador Julio Dias Rocha falou aos devotos que ao ser agraciado pelo Divino, apesar dele ser de origem humilde e não ter casa em Natividade, pois mora na zona rural, ele teve a responsabilidade de realizar uma caminhada árdua com a ajuda do Espírito Santo e as vezes, quando sente um cansaço, uma das coisas que o faz ficar feliz é o calor humano, pois a ajuda dos irmãos na preparação dessa festa, faz com que ele não se sinta só. E muitas vezes, pessoas que ele não acreditava que viriam ajudar apareciam e que muitas vezes, com as pessoas que ele não tinha contato, também apareceram para colaborar com o Divino.
Uma das questões abordadas pelo Imperador foi que algumas pessoas que haviam colocado o nome para a sorte do Divino, pediram para que fosse retirado. E que, até aquele dia (quinta-feira) não havia nenhum nome para a sorte. O Imperador disse que “essa história é nossa e muita gente aqui de Natividade não dá valor. Nos que somos nativitanos temos que convencer nossos irmãos da importância de ter a festa do Divino e claro, de ajudá-los com essa tarefa do Divino.”
O Padre Pedro complementou o pedido do Imperador e disse que “ao retirar o nome da sorte do Divino é sinal de rompimento com a tradição, pois se você colocou o nome, a sorte e a festa não é você que vai realizar, mas sim, o Divino. Pois o Divino que vai escolher o corpo em que ele quer agir para realizar o dia da caridade entre a comunidade.”
Com essa fala, o padre deixa a entender que a Festa do Divino promove aquelas três palavras citadas e que a caridade é a principal delas. Quando acabou a missa, os devotos formaram uma fila para beijar a bandeira da misericórdia e fazer pedidos ao Divino.
Preocupei-me com a informação de que não havia nenhum inscrito para Imperador e Capitão do Mastro, pois como irei realizar a pesquisa e ainda mais, não há como fazer a festa sem a escolha desses dois personagens principais. O Flávio me informou que até no domingo de Petencostes aparecerão nomes. Espero..

 Algumas fotos:

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