sexta-feira, 16 de julho de 2010

Diário de Campo - 22 de Maio de 2010


Diário de Campo
Natividade, 22 de maio de 2010.
Meu dia de pesquisa começou as 6h50 com um carro de som anunciando uma promoção de uma das casas agropecuárias da cidade. E alto! Esse é o problema de ficar hospedada no centro. E o prêmio maior é um arreio completo! Bom, para mim só falta o cavalo...
Estou com dores no pescoço, deve ser por causa da mochila, além das extensas caminhadas que faço pela cidade.
As mulheres da comunidade organizavam a Matriz para a saída da Esmola Geral. Tudo ficou enfeitado de vermelho. As bandeiras chegam a todo o momento e já estão são abençoadas. Há um grande movimento próximo a Matriz e são as mulheres (geralmente, idosas) que cuidam da ornamentação da igreja.
Ao chegarem na Matriz, as 21 bandeiras são nomeadas como forma de organização. E, no inicio benzem a Bandeira da Misericórdia e após são lido os nomes das duplas que levarão as bandeiras durante a Esmola, sendo que o portador da bandeira não pode tocar no donativo.
O Padre Pedro orientou-os que abençoassem todas as pessoas que encontrassem e caso elas não quisessem, a benção voltaria para quem a ofereceu. “Difundi em nós o Espírito Santo, pois a bandeira é nosso sinal para assegurar a santidade e a nossa fé”.
As pessoas estavam emocionadas durante a Esmola Geral, pagando promessas e muitas estavam vestidas com a cor vermelha em homenagem ao Divino. A solenidade é longa e cansativa, porém as pessoas não saem do local e acompanham todo o trajeto.
A bandeira da Misericórdia foi doada por um casal, tudo indica que seria uma promessa.
O encontro das bandeiras neste ano aconteceu no Centro de Convenções.
A noite, durante a Missa do Capitão do Mastro as pessoas sentam-se ao redor da igreja, nas calçadas das casas vizinhas, pois a igreja estava lotada, e escutam a missa que é transmitida pelos altos falantes da torre. A presença de famílias é constante e grande.
A maior parte das pessoas que estavam do lado de fora não prestavam atenção na missa, pois elas conversam, brincam e ficam esperando a hora profana da festa. Tudo indica que a parte profana chama mais atenção até porque esse será o momento que poderão observar e provar a força e fé do Capitão do Mastro.
Os jovens não participam diretamente, mas sabem da importância da festa e só o fato de estarem presentes nesse ambiente (mesmo que fora) está absorvendo a tradição, sem contar com a influência da família nesse processo.
Outra observação é que a maior parte das mulheres está dentro da igreja e seus respectivos maridos ficam do lado de fora esperando o momento de buscar o mastro. Conversando, claro.
Durante a missa, o Padre Pedro diz que a festa do Divino é a forma de celebrar a festa da vida na carne e que no reinado do espírito santo ninguém passa fome, nem sede e nem pode ficar triste, daí que se justifica toda a festa. E que além de toda a festa, os devotos devem crer no amor que é gerado pelo pai e filho através do espírito santo para unir o povo e falarem só uma língua.
O papel do Capitão na festa é chamar a atenção da comunidade para a importância da festa com seu mastro.  Durante a fala do Capitão do Mastro ele informou que o valor gasto em sua festa girou em torno dos 35 mil reais e ele gastou “do seu bolso” só 10% desse valor.
No final da missa, até então não havia nenhum candidato para ser imperador ou capitão do mastro para a festa de 2011 e o Padre Pedro se comprometeu em realizar a festa como imperador, caso não houvesse nenhum candidato.
Após a missa toda a comunidade presente sai em busca do mastro na casa do capitão. O capitão e arainha do mastro sobem em cima do mastro que por horas se parece com um barco. Os homens levantam o mastro e fazem movimentos rápidos de sobe e desce para testar a força dos dois. Em determinado momento, a rainha resolve descer e o fardo fica com o capitão.
Os catireiros e as dançarinas de suscia abrem o caminho dançando (até com garrafas na cabeça) e cantando o que atraem grande parte das pessoas. Luminarias seguradas pela comunidade, produzidas com cera de abelha, iluminam o caminho que será percorrido pelo mastro até a Matriz.
Cânticos são entoados enquanto todos seguem o mastro com o capitão em cima. A alegria é notória nesse momento da festa com risos, gargalhadas e música.
Ao chegarem em frente a Matriz, a suscia e a catira tomam conta do local e todos ficam ao redor, sendo que alguns dançam no meio da roda. Logo após esse evento, todos retornam para a casa do capitão do mastro onde a festa será oferecida para a comunidade, ou seja, comida e bebida não alcoólica.
Assim que todos se encontram no local, o capitão agradece pela presença de todos e oferece simbolicamente a mesa cheia de comida e bebidas (licores) para os presentes. Uma mesa muito enfeitada e cheia de adornos e guloseimas é desfeita em segundos. Porém, o papel do capitão foi cumprido.
Ao redor, vários ambulantes aproveitam a oportunidade para vender cerveja e espetinhos de carne. O forró começa e todos vão dançar, além de enfrentar uma fila organizada para pegar bolos, biscoitos, refrigerante e paçocas.
Eu voltei para a Casa de Cultura da UFT. Cansada, pois logo cedo (domingo) já era a missa e festa do Imperador.

Algumas fotos da Esmola Geral e da Festa do Capitão do Mastro:

Procissão da Esmola Geral



Missa e Festa do Capitão do Mastro (fotos de Emerson Silva - Fundação Cultural do Estado do Tocantins)




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