quarta-feira, 18 de agosto de 2010

E quando a linha 9 era só BASA/UFT...


Dessas minhas andanças de ônibus me deu uma saudade do tempo em que tivemos que 'prender' 17 ônibus dentro do campus, subir do trio elétrico e fazer discursos inflamados, além de circularmos todos os ônibus e cantar o Hino Nacional!
Nossa.. Arrepia!
Apesar dos pesares, muitos estudantes tentam levar a odisséia de andar na Linha 9 (BASA) na base da comédia. O texto abaixo é do meu colega de profissão, o jornalista Bob Maia, quando era apenas um estudante do 6º período do curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Tocantins.
Eis o texto!
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MEU AMIGO BASA/UFT

            Chego em casa lá pelas dez da noite, me acomodo na kitinete de dois quartos para 4 pessoas. A comida está fria, na verdade é uma sobra do almoço que fizemos pela manhã, excepcionalmente neste dia eu não fui ao restaurante comunitário. As roupas sujas sobre a cama, os livros jogados no canto de uma prateleira, as canetas mastigadas nos bocais, o comprovante de matrícula amassado em algum canto e, como sempre, os amigos reclamando da vida: -“Tá difícil a convivência nessa casa”...
            Tenho moto, não é uma “supermoto”, mas dá para levar umas quedas de vez em quando. No começo foram seis meses indo para a faculdade numa bicicleta. As a avenidas escuras, a pequena lanterna no guidão e os quatro quilômetros percorridos diariamente. Ainda tem acadêmicos na Universidade nessa situação. O certo é que para muitos alunos, pagar uma taxa de quase um real no coletivo não é fácil. A maioria já estuda em faculdade pública porque não tem dinheiro para bancar os estudos, e isso inclui despesas com transporte evidentemente.
            Certo dia, chego em casa (se é que as kitinetes podem ser chamadas de casa) com aquela tremenda fome de sempre. Nenhum dos meus amigos tinha chegado da faculdade, mas eu sabia que eles chegariam logo, pois era um dia especial. Faríamos no almoço, costela de gado com mandioca (parece simples, mas para quem tem que comer diariamente no comunitário... costela feita em casa, hummmm... é caviar).
            Não demorou muito, meus amigos chegam. Percebe-se pela cara de cansaço, a “contaminação que o estudo traz para as nossas mentes. Sem muita cerimônia eu pergunto logo:
-         Porque demoraram tanto?
-         Perdemos o Basa/UFT... responde Mano, (Um irformatomaníaco que faz ciências da computação)...
-         Ainda bem que perdemos... acrescenta Raul, (um acadêmico que faz Engenharia de Alimentos, e sabe fazer pão de queijo “cogumelos do pântano”).
-         Ufa! Escapamos por pouco... diz Valtei, com um tom de alívio, (este outro amigo faz Engenharia de Alimentos e é especializado em ranço oxidativo hidrolítico... entenderam?, nem eu....).
            Claro que diante de tais argumentações a única coisa que me restava era perguntar... e perguntei:
            -Que diabos vocês estão insinuando? Como é que alguém perde logo o BASA/UFT e ainda fica satisfeito?
            As explicações vieram logo e sem nenhum remorso.
-         O BASA/UFT sofreu um acidente... tombou!!! não me recordo qual dos três amigos me falou....
            Para mim nem precisava mais informação (apesar de fazer o curso de Comunicação Social), as imagens povoaram a minha cabeça, a vontade de correr desesperadamente para o local do acidente era inevitável.
            Pensei logo na grande quantidade de alunos que estariam dentro. Vi minha vida passar por inteiro naquela cena... Pensei no sangue, pensei no desespero das mães que deixaram seu filhos vir morar tão distante da família.Pensei em tantos sonhos que estariam chegando ao fim naquele momento. Pensei nos Einsteins que perderáimos, nos Drumonds de Andrade, nas Coras Coralinas, nos Willians Boners e em ultima instância, com aperfeiçoamento, até nos “Lulas” e FHCs... Pensei nos livros e mochilas amontoados sobre os destroços, pensei naquelas ambulâncias do SAMU e suas sirenes assustadoras.
            Vou continuar pensando... Pensei em algumas carteiras que ficariam vazias nas salas de aula. Pensei nas faixas pretas pregadas no campus, pensei nas cantinas, agora bem menos felizes. Pensei nas pastas e arquivos dos labins que ficariam sem dono, nas fichas da biblioteca com aquela foto 3x4 de recordação. Pensei em tudo... até na possibilidade dos meus três amigos estarem mentido... espera aí! Claro que deve ser mentira!!! como posso cair nessa? Tantos ônibus... e acontecer logo com o BASA/UFT?... era mentira sim... Ufa!
            A alternativa de transporte para os alunos de baixa renda continua “viva”. Ele não tombou e Deus nunca vai deixar que tombe. Com seu motor possante, com a sua cor verde, com aqueles “nominhos” escritos em amarelo limão (varia) que podemos vizualizar de longe... Lá vem ele (BASA/UFT) corram!!! Seus assentos duros, porém confortáveis, sua superlotação nos horários de pico, seu motorista usando camisa azul e um crachá, e principalmente... as duas melhores coisas: A ausência de cobrador e a sua rota que é uma das mais importantes dessa cidade BASA/UFT -  Restaurante Comunitário. Êta rota abençoada.
            “BASA” (pros íntimos), que nunca falte o óleo precioso que faz movimentar suas rodas nessa trajeto. Que nunca se acabe o ânimo e a potência com que você transporta 50,60,70 ou até mais alunos. Que seu farol continue aceso e cheio de alegria durante a noite. Que seus freios continuem fazendo barulho e acima de tudo, evitando desastres. Que em seu interior permaneçam as mesmas conversas dos alunos que querem mudar o mundo. Que a esperança de alguém que sonha em ter uma pick-up, um iate ou avião, nunca seja retirada diante dos solavancos dessas rotatórias.
            Meu amigo BASA/UFT, ontem eu tinha bicicleta, hoje eu tenho uma moto, amanhã pode ser um carro, ou talvez apenas os pés para caminhar. O importante é saber que você carrega espremido em suas poltronas a carga mais preciosa do mundo, algo de inestimável valor: O conhecimento, e principalmente a busca por mais conhecimento ainda. Cada pessoa que entra, cada pessoa que sai, cada vez que você cruza os portões da Universidade Federal do Tocantins em Palmas, não é só mais um ônibus que chega, é um universo inteiro de idéias capazes de mudar a rota de nossas vidas, e traçar o destino para um mundo melhor.

IDGLAN MAIA (BOB) 6º PERÍODO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL
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Logo abaixo, fotos da última grande mobilização na UFT, em prol da melhoria no transporte para os alunos. Eu estava lá. E tenho muito orgulho disso. Bem no canitnho, em cima do trio e de óculos escuros! Nostalgia..
Pate da história do movimento estudantil na universidade. Todos contribuíram e independente das versões, tenho orgulho em dizer que participei dessa manisfestação.
O que resta aos alunos dessa 'nova era' na UFT? Vontade de lutar pelo puro e simples movimento estudatil!
Estamos caminhando nesse rumo.. é só não nos esquecermos desses princípios que resolveram ou pelo menos sacudiram esse país e esse Estado!
Para quem quiser ler a carta do ex-presidente do DCE/UFT relatando sobre o caso, o link pode ser conferido aqui.


2 comentários:

  1. Cara, curti D+. Muito bom. Acabei de passar no vestibular da UFT e estou muito feliz, e procurando umas imagens para postar no meu face achei esta e cheguei a este blog. Gostei, parabéns. Sucesso a todos. Saimon Lima Geografia UFT. dobicodopapagaio.blogspot.com

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