quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Desabafo...

Hoje o post não foi escrito por mim, mas sinto-me contemplada com o desabafo de uma estudante de intercâmbio, a futura Jornalista, Garbiela Lago, que estuda na Universidade Federal do Tocantins e veio estudar durante um ano na Universidade do Minho, em Braga.
Conheço Gabriela.
Divido com ela esse sentimento.
Ela conseguiu expor em palavras tudo o que sentimos por ser mulher 'brasileira' na Europa.
Compartilho com vocês logo abaixo..
Gabriela tem um blog é o http://gabisempreela.blogspot.com/, mas ela ama o rádio!
Parabéns moça!

p.s: juro que tentei encontrar outra imagem da mulher brasileira, mas joguei no Google e só vi bundas e bundas e mais bundas! Triste!
____________________________________________



sEGUNDA-FEIRA, 13 DE DEZEMBRO DE 2010


“Bela, bela, bela...
Ela anda na rua como quem passa na passarela...
O mundo é dela...”

Ultimamente não consigo tirar essa música da cabeça. Para quem não sabe, trata-se da canção de abertura de uma das mais recentes séries da TV Globo. E a explicação é simples. Eu tenho refletido muito sobre a letra, mas principalmente sobre o impacto que a série provoca no imaginário popular. Não só dos brasileiros, mas principalmente dos estrangeiros.
Tudo bem que a series brasileiras não são muito difundidas no exterior, mas a fórmula é a mesma das novelas e filmes tupiniquins.
É surpreendente como a minha impressão sobre mim mesma se transformou desde que saí do Brasil. Diante dos vários papeis que representamos diariamente, essa foi primeira vez que adquiri a consciência da imagem da mulher brasileira mundo a fora. A sensação é dúbia, confrontante, confusa.
A princípio, algo próximo ao constrangedor, ao intimidador. Não, não foi vergonha, mas medo da força, do poder dessa imagem. Eu vim do Brasil “avisada” da imagem negativa que as mulheres brasileiras tinham  na Europa, mas confesso que não esperava sentir o peso disso.
Pela primeira vez na vida, senti o preconceito.O que no Brasil, parecia-me impensável acontecer .Eu branca, magra, classe media, universitária, pais casados, um único irmão,dois cães. O estereótipo da “boa moça”. Pela primeira vez senti o peso de ser mulher. Não só mulher, mas mulher brasileira.
Nos meus primeiros dias aqui, me senti muito desconfortável. Tinha a sensação de que ao abrir a boca e ser notado o meu sotaque, automaticamente apareceria “puta” na minha testa, uma vez que essa é a realidade de muitas brasileiras na Europa.
Por outro lado, um ego que se eleva diante de tantos olhares. Sim, pois “se conhece uma mulher brasileira a distância”, como já me declararam portugueses e espanhóis. E eu creio nessa verdade.
A diferença não está só nas formas e nos traços assimetricamente perfeitos. Está no jeito de andar, de olhar, sorrir. Na forma de se vestir e até mesmo no jeito de como usar o cabelo...


Pára e repara
Olha como ela samba
Olha como ela brilha
Olha que maravilha
(Lourinha Bombril, Os Paralamas do Sucesso)


Sim, porque só os traços e formas não alcançariam as diferentes mulheres brasileiras. Uma vez que qualquer biotipo pode representar o da mulher brasileira. Somos muitas, somos muito!


“Essa crioula tem o olho azul
Essa lourinha tem cabelo bombril
Aquela índia tem sotaque do Sul
Essa mulata é da cor do Brasil

A cozinheira tá falando alemão
A princesinha tá falando no pé
A italiana cozinhando o feijão
A americana se encantou com Pelé”
(Lourinha Bombril, Os Paralamas do Sucesso)

Mas infelizmente já se tem consolidado um estereótipo: mulher de pele bronzeada, olhos rasgados, cabelos longos e escuros...
Já ouvi algumas vezes que não tenho o perfil de brasileira.
Ah não?!
E esse beiço caracteriza o que?!
Ainda que eu não tivesse essa boca gigante. E o que são as gaúchas? E as nipônicas e hispânicas? E tantas quanto forem possíveis... Sim, um pedacinho de cada lugar reside no Brasil, nos “Brasis”.
Essa imagem estereotipada é reforçada pelos filmes e perigosamente pelas novelas, porque essas sim são a paixão nacional e forte produto de exportação.
Os portugueses gostam tanto de novelas brasileiras que já incorporaram muitas expressões ao seu vocabulário. E como sempre o que “não presta se aprende mais rápido”...
Ex: gatinha, gostosa, boa, bunda...
E acredite, eles usam largamente o vocábulo. Com as brasileiras, é claro. Porque as portuguesas são intocadas, imaculadas. Esse é outro fator que provoca nos homens portugueses esse desespero pelas brasileiras. As portuguesas segundo eles próprios são muito “fechadas”. Subentende-se que nós somos muito “abertas”?
As mulheres podem até negar gostarem de cantada, mas a maioria gosta. Só que nesse caso é realmente desagradável, pelo menos pra mim que sei o peso dessas palavras ditas pelos portugueses. Não é só um elogio a nossas formas, soa mesmo como grosseria.
Bem de qualquer forma é isso que as nossas produções áudio visuais reforçam. A aBUNDAncia de BOAS. A gostosa que chama atenção por onde passa e que não vive para outra coisa senão DAR prazer. Sim, somos as safadas, boas de cama.
Outro dia numa mesa entre brasileiros e portugueses tive o desprazer de ouvir : “A verdade é que sinto muita pena dessas mulheres ( brasileiras), elas não tem culpa de serem assim (putas)”
PUTA QUE PARIU!!!!!!!!!!
O cara achou mesmo que estava sendo legal com essa frase?!
Eu me senti tão mais confortável e agradecida por essa piedade. ¬¬
Mas a idéia é essa. É como se ser puta estivesse no sangue da brasileira.
E pensar que enquanto aqui somos uma bunda, no Brasil somos o orgulho da família. As filhas que foram estudar na Europa. Será mesmo que os portugas pensam que nós atravessamos o Oceano para conseguir residência permanente? Que nós viemos de tão longe porque o maior objetivo de nossas vidas era sermos putas em Portugal?
Ah tenha santa paciência!!!
Vejam bem, não quero generalizar. Claro que nem todos pensam assim. Mas quero utilizar esse espaço para desabafar, falar de algo que para mim tocou muito forte. Sinto esse clima pesado por onde vou. É como se minha aura de puta pairasse. Sinto isso constantemente.
Não sei se para as outras meninas que convivem comigo é assim. Mas eu senti a necessidade de falar desse preconceito com todas as letras, expor,me expor.  É algo que me incomoda desde que cheguei . É claro que com o tempo a gente aprende a lidar e até fica indiferente.   Tanto é que em momento algum pensei em largar o intercambio por isso.
Por que eu acredito na Maria, Maria que é um dom, uma certa magia... Essa é a minha brasileira. Sei que não é a única, mas é a que eu escolho representar.
E por que iniciei o texto falando da série “As cariocas” ? Por que como a própria música diz : “Ela é carioca, mas é da cor do Brasil”.
A série resume bem o estereótipo da mulher brasileira. Em primeiro lugar por que o Brasil é o Rio de Janeiro. Esse é nosso cartão postal. Em segundo por que a serie mostra a malandragem do carioca, traduzida pela safadeza das belas. Muito sol, shorts curtos, biquíni, praia, bunda. É a carioca representando a mulher brasileira.
Não me agrada ser vista somente por esses atributos. Mas também não me incomoda ser admirada por eles. O que me deixa puta, com permissão do trocadilho, é que as pessoas achem que temos que nos envergonhar por sermos quem somos.
Será que agora teremos que nos sentir culpadas por nossa beleza, alegria. Por rirmos da vida, por rirmos com ela. Por não esquecermos que além de filhas, mães, esposas, irmãs, somos mulheres. Mulheres que querem desfrutar com prazeres da vida, um direito que lhes deve ser dado. Mulheres que acordam cedo. Mulheres que sustentam filhos sozinhas. Mulheres que estudam para melhorar de vida. São as mesmas mulheres que ainda assim não se esquecem da vaidade.
A liberdade e o respeito da mulher não consiste em ser independente financeiramente, ser realizada profissionalmente. Não casar e nem ter filhos antes de outras conquistas. Essa liberdade consiste em escolher que papel quer representar.
Eu represento Gabriela Lago, filha de Vilmar Lago e Elza Ferreira, irmã de Grégory Lago, estudante de jornalismo, solteira, MULHER-BRASILEIRA-BONITA-NÃO-PUTA!

Nenhum comentário:

Postar um comentário